Meio dia, desde a tarde do dia anterior que não chovia. Os regatos corriam alegremente no montado pouco denso de azinheiras centenárias, exibindo as cicatrizes feias dos maus-tratos de outrora, mas agora em zona de proteção ambiental, sem machados, nem tratores com charruas, nem mesmo caçadores. “Está um gelo!!!”, lamentava-se a raposa ladina. “Ande o …

Meio dia, desde a tarde do dia anterior que não chovia. Os regatos corriam alegremente no montado pouco denso de azinheiras centenárias, exibindo as cicatrizes feias dos maus-tratos de outrora, mas agora em zona de proteção ambiental, sem machados, nem tratores com charruas, nem mesmo caçadores. “Está um gelo!!!”, lamentava-se a raposa ladina. “Ande o frio por onde andar, tem chegar no mês de Natal”. E de facto estava mesmo frio. A erva cobria os campos húmidos, mas rala e rasteira, pois a timidez do sol dos dias pequenos de dezembro e as temperaturas baixas não lhe permitiam grandes veleidades de crescimento. “O Natal é coisa de humanos. Não uso sapatos nem botas, não tenho chaminé; árvores sim, há muitas, mas nenhuma reluzente ou colorida e presentes nem vê-los. Além disso, não me recordo de ter existido alguma raposa de barbas brancas, vestida de vermelho ou de nome Jesus, aquecida pelos bafos dum burro e duma vaca quando nasceu. Tenho é fome!”, continuava a lamentar-se a raposa.

A umas centenas de metros, no mesmo montado, saltitava, nervoso, um jovem coelho, fugido dos campos onde os homens e os cães não davam tréguas a nada nem a ninguém e ainda por cima havia uns horríveis artefactos, a que chamavam espingardas, responsáveis por aqueles terríveis barulhos de fogo, ditos tiros, culpados de muito derramamento de sangue e morte a toda a espécie de bicharada, incluindo alguns dos seus tios e primos. Para ele, o Natal era conversa dos humanos, não dos orelhudos saltadores como ele. Falava com os seus botões, “Isto aqui é mais calmo, a minha mãe, apesar dos cães e dos tiros, ficou na toca, mas avisou-me que por estas bandas existem outros perigos…águias, raposas!…”.
E os nossosprotagonistas, coelho e raposa, lá continuaram os seus caminhos, rumo a uma ribeira, ladeada por velhos choupos amparados por uma densa ramagem, fronteiriça com uma vedação de arame, farpado em cima e com uma rede de corda em baixo, duma quinta perto dum povoado. Lá chegados, a ribeira ameaçava transbordar as margens com a sua água barrenta e tumultuosa. Impossível atravessar! “Talvez mais acima”, pensou a raposa. “Talvez mais abaixo”, sussurrou para si o coelho. E assim continuaram, quando, de repente, ficaram frente a frente, a escassos metros! ”O meu jantar!”, “ Por..! Mer.., uma raposa!”.

O coelho, pernas para que te quero, correu que nem um louco, mas a raposa, ladina, cortou-lhe o caminho, encurralando-o com a ribeira. Sem alternativa, o pequenote orelhudo saltou como nunca o tinha feito e aterrou na outra margem enlameada, já próximo da vedação. “Maldição!”, exclamou a raposa. Mas ela não era de desistir facilmente. Viu então um galho grande caído no leito do agora quase rio, e jogou a sua sorte, “ou morro afogada, ou caço o coelho!”. Assim o pensou, melhor o fez. Tomou balanço e saltou para cima do galho, e do galho para a margem…ou quase, pois caiu ainda na água. Num último e derradeiro esforço conseguiu chegar à lama da margem e arrastar-se para terra firme. O coelho, aterrado, estava petrificado e a raposa, cansada e após o susto, precisava de recuperar o folgo e o ânimo. Os dois, imóveis, ficaram a olhar-se durante alguns longos segundas. Subitamente, ao mesmo tempo, correram direito à vedação. O roedor saltou por cima da rede baixa da vedação, porém, bateu num arame, desequilibrou-se e estatelou-se na erva, indo bater com a cabecita numa rocha. “UI, que dor!”. Ficou tonto, encolhido e quase desmaiado. A raposa também tentou passar a vedação mas não saltou suficientemente alto e ficou com uma perna enleada, presa na rede. Gritou, ou melhor regougou, uivou, chorou de raiva, mas por mais que tentasse, mais presa ficava a perna.

Entretanto, um rapazola dos seus oito ou nove anitos, filho dos caseiros da quinta, andava por ali, ouviu os sons aflitivos da raposa e foi ver o que se passava. Que belo par, um coelho moribundo e ao pé uma raposa presa às cordas duma rede. Num ápice estava ao pé do coelho e quando ia agarrá-lo pelas orelhas, a raposa que estava bem perto, arreganhou os dentes e uivou quase como se fosse um pequeno lobo. O rapaz apanhou tal susto que caiu de cú numa poça no meio da erva. Todavia, aqui d´el rei, levantou-se mais depressa do que um foguete e fugiu molhado e esbaforido a gritar pela mãe. A mãe, uma mulher baixinha, bem rechonchuda, estava nas redondezas. Aflita com os gritos da cria, de bordão na mão direita, já com as faces vermelhas, correu em seu auxílio. De olhos esbugalhados ouviu entre soluços a história do filho. “Vamos lá ver o que se passa. Apanhamos o coelho e damos uma bordoada na zorra!”.
Entretanto, o nosso amigo coelho apercebeu-se que a raposa o tinha salvo. Que mundo este! O caçador salva a presa! Preparava-se para fugir, quando ouviu a voz zangada da mulher. Já recuperado, só um pouco tonto, subiu ao cimo da rocha onde tinha batido com a cabeça e vislumbrou mãe e o filho a caminharem na sua direção. E ela tinha um pau grande numa mão. Que medo! Virou-se para escapar e viu a pobre raposa ainda a espernear, cada vez mais presa. Ainda hoje não sabe explicar o que lhe deu, mas correu para a raposa, empinou-se o mais que pôde e, fervorosamente, começou a roer parte da corda que prendia a raposa. Mãe e filho aproximavam-se, o coelho roía a rede com quanta força tinha, a raposa debatia-se febrilmente, mas a corda não cedia…”Lá estão eles!”, gritou a mulher, “ já não me escapam!”. “Mais depressa, mamã!”, suplicava o miúdo. Então, quando a caseira estava a pouco mais de um metro da raposa e do coelho, uma derradeira e forte roedura rasgou a corda e, num desesperado esticão, a zorrinha conseguiu soltar-se e fugiu a sete pés, perdão, a quatro patas, tal como o seu companheiro de aventuras.

Sem olharem para trás, voltaram a saltar a vedação e desta vez sem erros de cálculo. Aterraram no outro lado. Instintivamente, olharam-se fixamente, aproximaram-se sem raiva nem medo, cheiraram-se como um cumprimento de agradecimento por se terem salvo um ao outro e cada um seguiu o seu caminho. Concluíram então que os coelhos também podem ser corajosos e as raposas não são tão más como alguns as querem pintar. Pode-se dizer que, contra todas as probabilidades, quase ficaram amigos.
Na manhã do dia seguinte chovia copiosamente, véspera de Natal, aquela data mágica para os humanos e seguiam os nossos amigos na berma de uma estrada de terra batida que servia a aldeia próxima, ainda não completamente refeitos da aventura do dia anterior. De aparelhos digestivos vazios ou quase, só o coelho tinha ingerido umas parcas gramíneas aguadas e que lhe davam caganeira, perdão, diarreia. Embora a alguma distância, em sentidos inversos e direções distintas, lá iam eles, quando surgiu uma carrinha de caixa aberta, carregada de víveres, fumegante e barulhenta, conduzida por um homem calvo, de bigode. A condução pouco retilínea, denotava que o dito condutor já andava a comemorar o Natal, quiçá até o fim do ano, Há algum tempo… Ora, de esse em esse, de travagem em travagem, de pulo em pulo, a carrinha acabou por ir à valeta. Foi-lhe imposta uma valente guinada direcionada ao eixo da estrada. Depois, mediu com estrondo um grande buraco da estrada, foi à outra valeta e, milagrosamente, com um soberbo salto voltou à estrada e foi-se embora.

O veículo fumarento voltou à estrada lamacenta sim, mas mais leve…fruto das guinadas e dos tombos, perdeu alguma carga, entre ela, uma caixa cheia de legumes, cenouras, nabos, nabiças, feijão verde e duas belas couves-lombardas. Ah, também perdeu dois sacos brancos que se romperam e deles saíram duas pobres galinhas e um desafortunado galo, estranha e completamente nus…e sem pescoço nem cabeça! Sem olhar ao perigo, raposa e coelho precipitaram-se na estrada e voltaram a encontrar-se, frente a frente, olhos nos olhos. Sorriram, como só os animais sabem sorrir, deram umas dentadinhas no irresistível repasto e, de improviso, começaram a levar as iguarias alimentícias para esconderijo seguro. O pequeno herbívoro, os legumes para junto dum buraco estreito e fundo no meio dumas rochas escorregadias; o parente próximo dos canídeos, para lugar seguro, onde tinha a sua toca bem escondida nas ruínas dum monte abandonado.

Começaram então a pensar que, se calhar, se calhar o Pai Natal e o Menino Jesus dos homens também podiam ser deles. Se calhar o Natal deveria ser de todos e para todos. Bem, uma coisa é certa, tinham sobrevivido com as mais que improváveis ajudas um ao outro, ficando próximos, quase amigos, e logo eles, os mais prováveis inimigos. E, cereja no topo do bolo, com tanta de fome, na véspera de Natal tinha-lhes caído do céu, perdão, duma carrinha, um banquete digno dum rei para qualquer coelho ou raposa! Não acreditavam em milagres, mas neste Natal…
Bem a história já vai longa. O roedor de orelhas grandes convenceu a família mais próxima a passar com ele a mais feliz, e única, consoada de que tinham memória… e ainda apareceu uma esbelta coelhita que há muito, platonicamente, namoriscava. A raposa, foi para a sua casa, perdão, toca e passou a consoada com três belos raposinhos, as suas filhotas e o seu filhote. Sim era uma mãe devota e babada, agora ainda mais feliz e realizada.
Quanto ao resto, cabe a cada um de vós tirarem as ilações desta singela história, se acharem que as há ou que vale a pena. Mas uma coisa é certa, esta é uma época muito especial para mim e por isso, desejo-vos sinceramente um feliz Natal e também um próspero 2026.

Fiquem bem e bem hajam

José Velez