Mário Cavaco
A Nova Ordem Mundial: conspiração, retórica ou apenas a velha ordem com gravata nova?”
Há expressões que, mal são pronunciadas, provocam duas reacções imediatas, ou o interlocutor revira os olhos, ou começa a procurar discretamente câmaras escondidas na sala.
“Nova Ordem Mundial”, a famosa NOM, pertence a essa categoria, em que para uns, trata-se da mais refinada conspiração de elites secretas, para outros, apenas mais uma fantasia conspirativa digna de romances de aeroporto e, como diria Winston Churchill, “a verdade é tão preciosa que deve ser protegida por um guarda-costas de mentiras”, em que a NOM vive precisamente nesse território nebuloso entre o medo e a retórica.
Historicamente, o termo não nasceu em caves conspirativas iluminadas por velas, mas em discursos políticos bem públicos, onde Woodrow Wilson falava de uma nova ordem, após a Primeira Guerra Mundial, imaginando uma comunidade internacional organizada, a Liga das Nações, que evitasse novas tragédias e, décadas depois, Franklin D. Roosevelt evocaria igualmente uma reorganização do sistema internacional após a Segunda Guerra Mundial, mas nada de sociedades secretas com ornamentos místicos, apenas diplomatas, tratados e uma fé talvez ingénua na engenharia política global.
Nos anos 70 e 80, a discussão ganhou nova roupagem com a proposta da Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação (NOMIC), nascida no seio da UNESCO e impulsionada pelo chamado Relatório MacBride, que pretendia equilibrar os fluxos de informação entre países ricos e pobres, intenção essa, quase pedagógica, seria democratizar a comunicação global, mas, contudo, como tantas boas intenções na política internacional, a ideia foi rapidamente engolida pela suspeita, pela geopolítica e pelo eterno desporto das Nações, desconfiar umas das outras.
Entretanto, no imaginário popular, a NOM transformou-se numa espécie de polvo omnipresente, com tentáculos no FMI, no Banco Mundial, nas crises financeiras, nas pandemias e até na meteorologia, se necessário fosse, onde, segundo essa narrativa, uma elite invisível conduziria discretamente a humanidade para um governo Mundial totalitário, mas, curiosamente, essa elite parece sofrer de uma curiosa incompetência logística, se controla tudo, fá-lo de forma extraordinariamente desorganizada.
De facto, basta olhar para o planeta para que a teoria tropece na realidade, porque se existe uma direcção única e omnipotente, ela parece ter uma agenda singularmente contraditória, com guerras comerciais entre potências, rivalidades religiosas milenares, choques energéticos, crises financeiras cíclicas e desigualdades obscenas entre Norte e Sul. Henry Kissinger, que conhecia bem os bastidores da geopolítica, dizia que “a ordem mundial nunca foi um sistema permanente, mas um arranjo temporário de interesses”, algo nada mais distante da eficiência conspirativa que alguns imaginam.
Hoje fala-se antes de multipolaridade, vários centros de poder, Estados Unidos, China, União Europeia, potências emergentes, disputando influência económica, tecnológica e estratégica, o que não é propriamente o cenário de um governo único omnipotente, mais parece, antes, um condomínio internacional onde cada vizinho puxa a manta para o seu lado.
E é aqui que surge a ironia maior, enquanto alguns temem uma Ordem Mundial totalitária, o verdadeiro problema talvez seja exactamente o contrário, a ausência de qualquer ordem minimamente eficaz, onde a pobreza persiste, as desigualdades aumentam e a globalização, que prometia prosperidade generalizada, produziu vencedores exuberantes e perdedores silenciosos.
Como lembrava Nelson Mandela, “a pobreza não é natural, é criada pelo homem e pode ser superada pelas ações humanas”, mas, no entanto, o sistema Internacional continua demasiadas vezes a funcionar como um elegante clube onde poucos decidem e muitos pagam a conta.
Talvez, portanto, a questão não seja se existe ou não uma Nova Ordem Mundial secreta, mas a verdadeira questão é outra, quem governa realmente a desordem mundial que vemos todos os dias?
No fim, a solução talvez seja menos cinematográfica do que os teóricos da conspiração desejariam, porque não passa por revelar sociedades secretas escondidas em castelos alpinos, mas por algo bem mais prosaico e politicamente incómodo, governos que defendam primeiro os interesses legítimos das suas nações, combatam a pobreza, promovam a criação de riqueza e cooperem, posteriormente depois da casa arrumada, internacionalmente sem transformarem o Mundo num tabuleiro onde poucos jogam e muitos são meros peões.
Porque, como escreveu Eça de Queirós, com aquela ironia fina que ainda hoje nos serve de espelho, “os povos nunca se perdem por falta de teorias, perdem-se por falta de carácter.” e talvez seja exactamente aí, não em qualquer conspiração universal, que reside o verdadeiro enigma da nossa época.