João Santos
Água, território e futuro no Bloco de Rega Póvoa–Amareleja
No Alentejo, a água sempre foi mais do que um recurso e durante gerações marcou o limite entre aquilo que a terra podia dar e aquilo que ficava por fazer.
A irregularidade das chuvas, os verões intensos e longos de uma agricultura maioritariamente de sequeiro condicionaram durante décadas o desenvolvimento agrícola de muitas zonas do território.
A construção da Barragem de Alqueva veio mudar profundamente essa realidade. Hoje é reconhecida como uma das infraestruturas mais importantes alguma vez realizadas no país. Mais do que a dimensão da obra, foi o regadio que transformou a economia agrícola, trouxe investimento e valorizou o território.
Onde chegou a água, chegaram também novas oportunidades, surgiram empresas ligadas à atividade agrícola e criaram-se postos de trabalho. Em vários pontos do Alentejo, o regadio permitiu olhar para a agricultura com outra ambição e outra capacidade de futuro.
Porém nem todo o território beneficiou da mesma forma. Há zonas que, apesar de estarem na área de influência de Alqueva, continuam à espera que a água chegue às suas terras. É neste contexto que ganha particular importância o avanço do Bloco de Rega Póvoa–Amareleja.
Este projeto poderá levar regadio a milhares de hectares nas freguesias de Póvoa de São Miguel, Amareleja e em áreas do concelho de Moura. Falamos de terras com tradição agrícola, trabalhadas há gerações, onde o acesso à água pode fazer uma diferença enorme na produtividade e na viabilidade de muitas explorações.
O impacto de um projeto destes não se mede apenas em hectares irrigados, mas na dinâmica económica que pode gerar em todo o território envolvente. A agricultura mobiliza empresas de serviços agrícolas, transportes, comércio, indústria agroalimentar e muitas outras atividades que dependem direta ou indiretamente deste setor.
Num território que enfrenta há décadas o problema do despovoamento, cada investimento estruturante ganha um significado especial. Criar condições para uma agricultura mais competitiva é também criar condições para que as pessoas possam viver e trabalhar no interior.
A agricultura que hoje se pratica nas áreas de regadio é muito diferente da que existia há algumas décadas. Tecnologias de precisão, sistemas de monitorização do solo e uma gestão cada vez mais eficiente da água permitem produzir mais e melhor, com maior sustentabilidade.
O Bloco de Rega Póvoa–Amareleja enquadra-se precisamente nesta lógica de desenvolvimento do território. Não é apenas uma obra hidráulica. É um investimento com impacto económico, social e estratégico para toda a região.
Naturalmente, projetos desta dimensão exigem tempo, planeamento e decisões políticas claras. Nos últimos anos foram dados passos importantes, mas é fundamental garantir que o processo continua a avançar e que não fica preso em sucessivas demoras administrativas.
Importa também reconhecer o trabalho de quem tem mantido este tema na agenda. A Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos e seus responsáveis têm sido uma voz ativa e com conhecimento de causa na defesa deste projeto. Também o deputado do PSD Gonçalo Valente, eleito pelo distrito de Beja na Assembleia da República, tem procurado chamar a atenção para a importância desta infraestrutura para o território e seu desenvolvimento.
O Alentejo já demonstrou que sabe transformar investimento público em desenvolvimento económico real. O regadio associado a Alqueva é hoje um exemplo disso mesmo.
O Bloco de Rega Póvoa–Amareleja pode ser mais um passo nesse caminho. Um passo importante para a agricultura, para a economia local e para o futuro do território.
Investir na agricultura é também investir no interior e nas pessoas que nele vivem.