Lurdes Fachadas
Flashbacks Inolvidáveis
Por vezes, o que retemos mais tempo ou de forma mais preciosa na nossa memória não são os sítios de onde partimos, nem os sítios onde chegamos.
É a Viagem. Ou melhor, alguns momentos do caminho, sob a forma de pequenos, mas poderosos flashbacks inolvidáveis.
Viagens de percursos aéreos, onde após filas, controlos e suor, finalmente nos refastelamos no cadeirão do avião (cadeirão, talvez seja exagerado, para quem se atravanca entre o encosto do vizinho da frente e o descanso de braço partilhado), respiramos fundo quando o avião já se endireitou após a descolagem, e a sensação de sermos um mega-pássaro por cima das formas de algodão esvoaçante compensa tudo.
Percursos ferroviários (ah, o comboio! Minha velha paixão!), o embalo ao som do tum-tum... tum-tum, paisagens que passam, ora rápidas, rápidas, (aquilo era uma vaca???) ora leen-taa-men-teee... e quase nos perdemos no tempo. Antes de gostar do comboio, já gostava da automotora (que nos ligava a Beja). Do seu estilo, do cheiro dos carris e do ar da estação, talvez por simbolizar uma promessa de Descoberta. O comboio para mim sempre teve a vantagem única de podermos viajar sentados, em pé, debruçados da janela, ou até deitados. De ler, sem enjoar. De nos levar em viagens que trazem à mente ícones de aventuras literárias e cinematográficas, como o Expresso do Oriente e o seu glamour; o Polar Express e a magia do Natal; ou as locomotivas, cruciais na criação do Novo Mundo no velho Oeste americano. Embora, para as tribos nativas, os "cavalos-de-ferro" desse Mundo Novo, nada mais tenham trazido do que o fim do seu, daí o facto de serem também denominados por "Long Black Snake" (Longa Cobra Preta), numa alusão à intrusão negra, em todos os sentidos, e não natural do seu ambiente.
E que dizer dos percursos de automóvel? Com amigos e, portanto, galhofa; com família, cumplicidade e proteção, ou sem ninguém; "road trips" em que somos piloto e co-piloto. Percursos que podem ser uma aventura, sem GPS nem Google maps, como a que me calhou pela estrada da costa vicentina, porque (felizmente!) me "perdi" a caminho do Algarve (aliás, perder-me sempre foi, para mim, uma forma de vida desde que comecei a andar, a minha mãe que o diga...). Para chegar a Lagos, num dia de início de verão nos anos 90, em vez de continuar em frente, segui na direção de Sines, por onde foi, de facto, uma viagem muito mais demorada, mas também, decididamente, muito mais mágica. Lembro-me, como se fosse hoje, da sensação de seguir protegida por um toldo de copas de pinheiros mansos, maravilhada com o efeito do túnel arbóreo. E, como se esse verde majestoso em pleno Alentejo (tão diferente do "meu" Alentejo) não bastasse, lembro-me de, algures no caminho, desviar os olhos da estrada e vislumbrar aquele majestoso manto azul real - o Atlântico! Qualquer um de vós, com certeza, saberá como é saboroso viajar desvendando um caminho percorrido por acaso, com a leveza da juventude por única companhia. Das inúmeras viagens Lisboa- Moura que fiz, também muitas vezes me ficou "só" o percurso. Como o de uma noite de tempestade, com relâmpagos a iluminar o negrume da paisagem de forma cadenciada, num crescendo de luz e som como uma espécie de bolero de Ravel. Ou o episódio caricato de me encontrar face a focinho com uma vaca castanha, tão assustada como eu, sem haver maneira de a "convencer" a ir para um dos lados ao invés de trotar à minha frente.
Pois é. Belos, mágicos, misteriosos e às vezes desconcertantes são os acasos, quando os não entregamos nas mãos de outrém, seja o humano sabe-sempre-melhor "Não é por aí!! Vira, vira..."; seja o todo-poderoso gadget que debita coisas como "na próxima rotunda, siga pela terceira saída..." A escolha entre fazer a coisa sem percalços, ou enganar-se, perder-se, atrasar-se, (descobrir -se!) continua a ser, para mim, bastante óbvia. Porque como alguém um dia disse: "A vida é o que acontece, enquanto fazemos outros planos." Boa Páscoa, amigos e boas viagens!