Alcina Souza
Formação Desportiva de Base e Cidadania
Há um provérbio africano que afirma que é preciso “toda uma aldeia” para educar uma criança Embora vivamos num contexto um pouco diferente, a essência da ideia é válida e transversal nas diversas culturas do mundo. De facto, o desenvolvimento dos mais novos deve-se a um esforço em conjunto da família, comunidade envolvente e de instituições variadas, nomeadamente das escolas, do município e de associações e clubes desportivos que trabalham na formação desportiva de base.
Conversamos com António Alvarinho, treinador de voleibol e Presidente do “Moura Volei Clube” e com a Adriana Alho, também treinadora, acerca deste precioso contributo, da formação desportiva de base, no desenvolvimento de crianças e adolescentes. O Desporto como um palco de aprendizagens não apenas na área da motricidade, mas também no desenvolvimento de competências de várias áreas que contribuem para um crescimento global e saudável, promovendo valores basilares da Cidadania.
António Alvarinho, já com uma caminhada de cinco décadas neste mundo do voleibol, refere a importância do trabalho que é realizado nos treinos; um trabalho que vai muito além do ensino de gestos técnicos eficientes e de táticas de jogo, mas que envolve uma aprendizagem a nível de gestão das emoções. Ensinar que falhar é normal, principalmente se estamos num processo de aprendizagem e essencialmente ensinar as atletas a perceberem essas falhas e erros, como uma oportunidade de evoluírem, seja tecnicamente, seja a nível pessoal. Com palavras de encorajamento e suporte, ensinar a prosseguir; a não desistir, mas a continuar a trabalhar, para melhorar.
Adriana, também valoriza muito “o tempo de conversa” no final de cada treino; a criação de um “espaço seguro” em que o treino pode ser analisado e comentado de forma que cada uma das atletas possa perceber como pode melhorar, criando também um ambiente onde a empatia e o respeito pelas dificuldades dos outros são encorajados, aumentando o companheirismo entre as atletas e promovendo o senso de unidade.
É muito interessante perceber a influência do desporto, ao longo da vida; a Adriana havia sido atleta, primeiro na escola, no “Desporto Escolar” - o professor de Educação Física percebendo o potencial que tinha, encaminhou-a para o clube da cidade onde ficou por vários anos. Entretanto, como acontece com tantos outros jovens, a sua formação académica levou-a a sair da cidade. No entanto, o gosto pelo desporto e as boas memórias dos tempos como jogadora de voleibol em Moura, permaneceram vivas. Anos mais tarde, regressou aos campos e aos jogos, desta vez, como treinadora. O seu antigo treinador, António Alvarinho encorajou-a a seguir com a sua formação como treinadora. O convite foi aceite e a Adriana está na fase final do estágio, já com muito para partilhar.
Os grandes desafios no voleibol são também os desafios do interior do país e desta bela região: grandes distâncias a serem percorridas cada vez que uma equipa vai “jogar fora”. Em algumas categorias, as outras equipas são todas de clubes que se localizam no litoral: algarvio e região de Setúbal.
Além disso, conciliar a atividade profissional, vida familiar e responsabilidades com os treinos e jogos, é um desafio, que é vencido pelo grande amor que tem pelo desporto e pela modalidade. Para a Adriana, treinar, é uma forma de proporcionar a outras adolescentes, os bons momentos que viveu na sua adolescência, enquanto atleta; é poder retribuir ao clube e à cidade essas boas recordações que tem.
Um outro desafio é a gestão do espaço e organização de horários, tendo em conta a partilha do mesmo espaço com várias modalidades, clubes e atletas de várias idades.
Para ambos, é uma grande alegria poderem acompanhar o desenvolvimento dos atletas; perceber a sua evolução desportiva, mas também o seu crescimento pessoal que é demonstrado na postura nos treinos e nos jogos, na resiliência e disciplina ao longo da semana, no modo como incentivam os colegas em campo principalmente quando falham em momentos cruciais do jogo e também nas atitudes que têm perante outros atletas.
O Desporto, é de facto uma ferramenta muitíssimo importante para o desenvolvimento das competências sociais que são a base da Cidadania: o respeito, a empatia, a ética, a disciplina; aprendizagens preciosas que acompanharão os atletas ao longo da vida.
Aqui no Baixo Alentejo, existe uma bela cidade raiana com aroma de azeite; “toda uma aldeia” para continuar a educar muitas crianças e adolescentes; uma responsabilidade primordialmente da família, certamente enriquecida pelo trabalho desenvolvido pelo município, pelas escolas, pelas associações culturais e pelos clubes desportivos.
Entretanto, mesmo com “o frio de janeiro”, ao fim do dia, ou à noitinha, há uma bola branca, azul e amarela no ar. “Força Moura!”