Jorge Valente
Governos tipo “Velho do Restelo”
Consta numa lenda medieval (citada até hoje) portugesa que, na praia do Restelo, no dia 8 de Julho de 1497, quando Vasco da Gama, depois de se despedir do rei D. Manuel I, embarcava na sua nau capitânea...
Consta numa lenda medieval (citada até hoje) portugesa que, na praia do Restelo, no dia 8 de Julho de 1497, quando Vasco da Gama, depois de se despedir do rei D. Manuel I, embarcava na sua nau capitânea, da armada expressamente incubida de “descobrir o caminha marítimo para a Índia”, estava um ancião mal dizendo a viagem e os marinheiros, sob o argumento de que os temerários navegadores, movidos pela cobiça de fama, glória e riquezas, procuravam um desastre para si mesmos e para o povo português. Pensa-se que essa lenda tenha sido originada a partir das estrofes 94 a 104 do canto IV de “Os Lusíadas”, obra onde Camões patenteia claro entusiasmo pelo sucesso daquele empreendimento marítimo, que descreve, mas também parece contradizer-se, introduzindo a fala, em questão, de um idoso, transpirando pessimismo e receio de que a pretendida epopeia se transforme numa odisseia de naufrágios e mortes. Os portugueses de então teriam passado a chamar esta personagem de “Velho do Restelo”, o qual, assim, acabou transformado no símbolo do pessimismo e ídolo dos pessimistas, em relação ao que quer que seja.
Vem isto a propósito do que se passa em Portugal, como consequência das guerras, hoje em curso, na Ucrânia e no Irão. Como sempre, os mais afetados são, internamente, os pobres (as maiores vítimas da inevitável inflação) e, em termos de países, os que não souberam aproveitar os seus recursos naturais, entre os quais está Portugal. Os meus leitores devem lembrar-se da dezena de artigos que já publiquei, nesta minha coluna de opinião em A Planície, abordando os minérios de que dispomos (em grande volume e boa qualidade) e não exploramos, por incompetência estratégica dos govenos que temos eleito nos últimos quarenta anos, temerosos daqueles que nos querem impõr uma “ditadura verde”, falam de uma “descarbonização” (onde fomos além do normalizado pela União Europeia, um erro crasso) e negam o uso de energia nuclear (a única verdadeiramente “limpa”) por temerem uma tragédia de radiação e mortes (como se isso fosse certo de acontecer). Pessimistas tristes não nos faltam. O “Velho do Restelo” renasceu em S. Bento.
Comecemos pelo problema da energia, despoletado, primeiro, pelas sanções europeias impostas à Rússia, que nos impedem de importar petróleo e gás de lá, causando-nos uma primeira alta de preços nos combustíveis e eletricidade (mas, mudàmos a sua origem e não houve escassêz), e, depois, veio o fecho do estreito de Ormuz, causando, ao mundo todo, um verdadeiro “choque” nos preços e no abastecimento de combustíveis fósseis e para a produção de energia elétrica (e também de fertilizantes). Só que, ao largo da costa Vicentina (ainda em área marítima portuguesa, mas longe de qualquer possível visualização a partir de terra) existe, comprovadamente, um dos maiores e melhores depósitos submarinos de gás natural da Europa Ocidental, cuja concessão foi outorgada e depois retirada, por pressão demagógica das ONGs ambientalistas e fraqueza do governo PS da “geringonça”, de António Costa. Se se tivesse avançado neste projeto, não só estaríamos abastecidos em termos de combustíveis e eletricidade, como poderíamos estar exportando algum gás natural, aos altíssimos preços do mercado internacional atual.
Quanto a minérios não energéticos, por falta de espaço nesta coluna, limito-me a mencionar apenas os casos do ouro e do tungsténio. Devido à insegurança geopolítica internacional o preço do ouro, em quatro anos, passou de USD 1.500,00 para mais de 5.000,00 por onça troy. Devido à necessidade de fabricação de aço duro e resistente às altas temperaturas, das armas, tanques, aviões, etc., o preço do tungsténio foi multiplicado por 5 nos últimos dois anos. Em 2017 tinhamos duas minas de ouro (Penedono e Boa Fé) com concessão experimental outorgada, que não foram adiante por problemas de má gestão e burocracias estatais. Não seriam minas grandes, mas seriam lucrativas e gerariam, cada uma delas, centenas de empregos qualificados. Caso diferente, mas parado pelos mesmos motivos, seria a mina de tungsténio de S. Pedro das Águias (Tabuaço), pois o seu depósito é, simplesmente, o maior e melhor de toda a Europa, estendendo-se ao longo do vale do rio Douro (margem sul) até Espanha, onde hoje se está abrindo uma mina (em jazida mais fraca do que a sua parte portuguesa). O atual aumento do preço do tungsténio, no entanto, tem um aspecto positivo para Portugal, pois está dando uma sobrevida (parece ser mais 15 anos) à emblemática mina da Panasqueira.
Finalmente, uma palavra para o lítio. Falou-se tanto, hesitou-se demais, prometeu-se muito, avançou-se pouco, tudo está tão atrasado, que as futuras minas, se entrarem em produção, não se beneficiarão da alta dos preços deste minério, porque já começou a sua queda, devido ao mais que provável sucesso de alternativas, tecnicamente melhores e com menos custos (baterias de alumínio e energia a hidrogénio).