Tiago Fialho
Interior com Voz: Uma Responsabilidade Política ao Serviço do Território
Durante décadas, os territórios do interior português habituaram-se a enfrentar desafios estruturais que persistem com uma tenacidade que nenhuma boa vontade isolada tem conseguido superar.
A desertificação demográfica, a dificuldade crescente em fixar jovens qualificados, o acesso limitado a oportunidades de desenvolvimento e uma sensação progressiva de marginalização face aos grandes centros de decisão política e económica são marcas profundas desta realidade. É neste contexto que a participação de jovens oriundos destes concelhos em estruturas de âmbito nacional deve ser entendida não como uma mera conquista pessoal, mas como um sinal de que o interior permanece disponível e determinado a contribuir, de forma ativa e qualificada, para a construção coletiva do país.
A minha eleição como dirigente nacional na Juventude Social Democrata representa, acima de tudo, uma oportunidade para reforçar a presença do interior nos espaços onde se debate e decide a política nacional. Num país ainda atravessado por profundas assimetrias territoriais, é imperioso que realidades como as de Moura e do distrito de Beja, territórios de fronteira, de tradição agrícola milenar e de uma identidade cultural inconfundível, possam ter maior proximidade e capacidade de influência nos debates que moldam as prioridades estratégicas para o futuro do país.
Mais do que o exercício de uma função, esta responsabilidade deve servir para fazer convergir as preocupações locais com o debate político nacional. Questões como a valorização da agricultura de sequeiro e da olivicultura alentejana, o investimento em infraestruturas e acessibilidades que ainda penalizam a mobilidade no Baixo Alentejo, a criação de emprego qualificado, a habitação jovem nos concelhos de menor dimensão ou a atração de investimento estruturante para a região necessitam de uma voz política de maior capacidade de afirmação institucional. Só com uma presença mais consistente e participativa nos centros de decisão será possível contrariar a tendência histórica de centralização que, repetidamente, coloca territórios como o nosso numa posição de subalternidade política.
O Baixo Alentejo encerra, porém, um potencial que frequentemente escapa à narrativa dominante do declínio. Moura e os concelhos vizinhos são hoje palco de experiências relevantes no domínio das energias renováveis, da agropecuária de elevado valor acrescentado e de um turismo rural e de natureza com capacidade de afirmação crescente. A condição de território de baixa densidade não pode continuar a ser sinónimo de menor prioridade política. Pelo contrário, deve traduzir-se numa atenção redobrada por parte das estruturas partidárias e do Estado, capazes de reconhecer nestes lugares a diversidade e a resiliência que tornam Portugal um país mais equilibrado e coeso.
Importa igualmente reconhecer que nenhum percurso político se constrói no isolamento. Este momento resulta do trabalho persistente de muitos jovens, dirigentes locais, autarcas e militantes que, ao longo dos últimos anos, sustentaram viva a participação cívica e política no distrito de Beja, muitas vezes em circunstâncias adversas e sem o reconhecimento que mereceriam. São esses contributos coletivos e silenciosos que permitem continuar a afirmar que o interior tem talento, capacidade e vontade de participar nos grandes desafios nacionais.
Num tempo em que muitos jovens encaram a política com distância ou desconfiança, torna-se ainda mais relevante demonstrar que a participação continua a ser um instrumento eficaz de mudança e de representação. Deve-se incentivar o envolvimento político dos jovens, seja ele partidário, independentemente da filiação, ou não. O país precisa de estruturas políticas mais próximas das diferentes realidades territoriais, mais abertas à renovação geracional e mais conscientes das dificuldades concretas que se vivem fora dos grandes centros urbanos.
Mais do que um momento simbólico, esta etapa deve reforçar uma ideia que é, na sua essência, também uma exigência. Portugal só alcançará a verdadeira coesão territorial quando o interior dispuser não apenas de atenção retórica, mas de presença efetiva nos espaços onde se tomam as decisões que definem o futuro coletivo. É essa responsabilidade, concreta, exigente e inadiável, que deve guiar quem assume funções políticas, sobretudo quando traz consigo a realidade e as aspirações de territórios tantas vezes esquecidos pelos poderes centrais.