Lurdes Fachadas
Junho é um mês radiante
Junho é um mês radiante (até o solstício lhe pertence) e deve o nome à deusa das mulheres, do casamento, da fertilidade e da continuidade das famílias, Juno.
Bom, em termos de fertilidade, cumpre-se logo no epíteto; Juno, a mãe, dá à luz o filho, Junho). O sexto mês do ano é também um símbolo do amadurecer da Mãe Terra, contido na passagem da Primavera para o Verão, embora durante a maior parte do mês sejamos ainda crias, pardalitos saltitantes a experimentar a vida, ou seja, somos mais tempo Primavera do que Verão. Daí fazer todo o sentido que seja em junho que se celebra o Dia da Criança, um dia que vai ressoando ao longo da estação como uma harpa debitando sons mágicos; cada nota é um gritinho ou uma gargalhada da felicidade mais sentida, despreocupada e espontânea que é a da infância. Ao trazer à memória essa etapa da minha vida, desce sobre o meu coração aquele calorzinho aconchegante da gratidão.
Gratidão por ter tido a sorte, o privilégio, mais ainda, a benção (!), de ter sido criança em Moura. De ter experienciado os piqueniques únicos da segunda-feira de Páscoa (só para durões, pois desde a palha, às flores campestres, muito belas e coloridas, mas cheias de picos, espigões e barbela nos caules, e desde as melgas às carraças, tudo picava). De ser criança numa altura em que havia tempo para tudo, como o prazer de retirar um disco do papel, dentro da capa de cartão e ler as letras das canções ao lado das imagens que ficavam, por seu lado, impressas na nossa memória. Ou de ter tido a felicidade de ser seguida como uma deusa por cães vadios agradecidos pelos restos que lhes dava, quando ainda sobravam restos dos restos da nossa cadela. Nada disto, tal como acompanhar o meu pai em expedições nas margens de uma ribeira para escavar em busca de minhocas (desculpem minhocas) que iam para a lata do isco, tem preço. Ser criança em Moura era poder brincar com os primos todos os dias. Era ir chatear as tias, a pé e a qualquer hora, porque a mãe já não tinha paciência; era acordar ao som dos Cabeçudos e dos morteiros a Nossa Senhora do Carmo na Festa, e ir à Praça de Touros ver concertos de bandas belíssimas, como os Heróis do Mar (obrigada a todos os que, apesar de tudo, não retiraram da escala das suas tournées as terras pequenas (e escaldantes!) perdidas num mapa ainda muito "árido").
É de noite, já tarde, quando resolvo subir ao sótão da casa dos meus pais e espreitar o baú das recordações. Vou de lanterna na mão, pezinhos de lã, para ver se não acordo os que já dormem... Mas, ir em silêncio, qual quê! Missão impossível desde que a minha mãe tem, lá ao fundo do quintal, dois patos do tamanho de cabras, e que se comportam como cães de guarda à noite. Enfim, lá consigo chegar ao último degrau sem me estatelar de lanterna no chão com a pressa de desparecer do "radar" dos bichos. À conta dos patos, penso, enquanto abro a porta do sótão, que também nesse aspecto fui privilegiada na meninice, ao albergar um autêntico mini jardim zoológico em casa, com todas as aprendizagens que isso nos permitiu. O meu pai gostava muito de animais, a minha avó também, mas por razões prosaicas e de cariz utilitário, uma vez que alguns iam inevitavelmente parar ao prato; por último, mas não menos importante, a minha mãe tolerava a presença da bicharada toda. Assim, enfim, digamos que havia uma autorização tácita para adotarmos quase tudo o que mexesse. Patos, cágados, girinos, canários, coelhos e pombos, tudo passou por nossa casa. Para além dos cães e dos gatos, claro! Se o quintal fosse só um bocadinho maior, acho que tínhamos conseguido ter lá um burro ou uma vaca. Problema era pô-los a subir e descer escadas...
Finalmente junto à arca antiga, abro-a, com um estremecer de adrenalina quando me ocorre que pode saltar de lá um rato em vez da caixa das fotografias. Felizmente não, ufa! Sento-me no chão, enquanto seguro uma das fotos que me faz sorrir. É uma foto meio desfocada, dos anos 70, de quatro meninas. Eu, as minhas irmãs e uma das minhas primas dentro da bagageira do carro do meu pai, um Simca branco. (Ah, quem venera agora um carro elétrico com consola inteligente, não sabe o que é ter um Simca de bancos rijos ou andar em carros com "mudanças de cachimbo" como o 2 CV ou a icónica 4 L. Isso sim, era uma emoção!) Adiante. Nessa foto, o carro está estacionado no campo com a bagageira aberta e nós de joelhos lá dentro, viradas para fora como numa varanda. Apesar da paisagem campestre, os nossos vestidos festivos e ar aprumadinho contrastam com ela e contrariam a ideia de que a foto poderia ter sido tirada num piquenique ou numa ida familiar a acompanhar o meu pai e tio na pesca. Esta foto foi tirada em Viana do Alentejo, no terreno onde termina a interessantíssima romaria equestre, junto ao surpreendente santuário de Nossa Senhora de Aires. Nos arredores da pequena vila, este santuário, já de si inesperado no meio do Alentejo, apresenta uma escala monumental e uma riqueza arquitetónica dignas de nota. Sei que quase todos temos recordações da infância como a mais feliz de todas as "nossas épocas", mas quando penso nessa e noutras fotos da caixa das memórias, sei que o meu tesouro mais rico foram estes "momentos Kodak" em formato de memória, numa família que me proporcionou uma infância onde o frágil caule da vida teve as condições para se transformar em árvore resiliente. Na Declaração da Independência Americana de 1776, um dos mais iluminados textos da história da humanidade, pode ler-se - "We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness". Embora só esta passagem dê pano para mangas, foco-me no direito proclamado aqui à procura (pursuit) da felicidade. Não se podendo garantir felicidade (obviamente), o dever do Estado é o garante das condições propícias à mesma. Ora, a nossa infância é como o nosso "Estado Pessoal". É de suma importância celebrar o Dia da Criança, proteger os seus Direitos inalienáveis e acarinhar a própria Infância em si, pois ela, ainda que não podendo garantir a felicidade, é o eterno regador do tal caule em constante crescimento, e é, por isso, o que nos dá as melhores condições para alcançarmos de maneira mais consistente ao longo da vida aquilo que cada um de nós tem moldado no seu íntimo como sendo a forma da Felicidade. E, para terminar, lanço um repto, aproveitemos todos junho para nutrir a nossa criança interior, cada um à sua maneira, pois vale sempre (muito!) a pena.