Lucas Estêvão

Nova Central Fotovoltaica Flutuante na Albufeira de Alqueva?


Tem vindo a lume, na imprensa, e sido referida nas redes sociais, a contestação dos municípios da área da albufeira de Alqueva, e da ATLA, à projetada instalação de uma nova central elétrica fotovoltaica flutuante, nas águas da albufeira.

O processo de instalação dessas centrais é relativamente antigo. A Planície, on line, referia-se, já em 18-5-2012, ao assunto: Mencionando o ministro do Ambiente de então, João Pedro Matos Fernandes, atribuía-lhe a informação de que a barragem de Alqueva estava em avaliação sobre a possibilidade de ser incluída no “3º leilão solar para 500 megawatts de produção através da instalação de painéis fotovoltaicos nos espelhos de água de 10 a 12 barragens”. A central agora prevista, foi anunciada, em 2019, pelo então ministro João Galamba, como “o maior projeto de solar flutuante do mundo”. Na sequência de leilão realizado em 2021, veio a ser atribuída à EDP-Produção, no ano seguinte, a possibilidade da construção da central agora em contestação pelos autarcas.

Entretanto, sem necessidade de submissão a concurso, a EDP instalou a pequena central flutuante que se encontra hoje a funcionar junto à barragem de Alqueva. Sobre este caso escrevi, na “Planície”, vários artigos, entre os quais, há quase sete anos, no número saído a 15-8-2019, um extenso artigo (o primeiro duma série) que intitulei “Sobre a Instalação de uma Central Fotovoltaica Flutuante junto à barragem de Alqueva” (projeto de que fui e sou crítico). Sem deixar de referir os impactos positivos de centrais dessa natureza, salientei - para além dos riscos potenciais resultantes da instalação, naquele local, de tal equipamento, em caso de cheias excecionais –, como aspetos negativos, a artificialização do meio ambiente aquático, e consequente perda de valor turístico da zona - talvez a mais emblemática (e divulgada pelos media) da albufeira -, que resultaria dessa instalação, bem como, no respeitante à generalidade das instalações desse tipo, as consequentes restrições à fruição do plano de água por várias atividades (pesca, navegação, usos lúdicos e desportivos). Finalmente, referi: “estou certo de que a eventual concretização do projeto da EDP-Produção, contende, se não diretamente pelo menos indiretamente, de maneira negativa” com os projetos que a Câmara Municipal de Moura apresentara ao Programa Operacional Regional para a construção da praia fluvial, da piscina e da estação náutica.

Apesar do que escrevi, e das minhas insistências, durante anos, junto de várias instâncias oficiais, designadamente, junto do Ministro do Ambiente e da Ação Climática, e da Direção-Geral da Energia, a central foi instalada. Fiquei isolado nessa contestação!

Congratulo-me, agora, com o facto de as autarquias virem contestar a instalação de uma nova central fotovoltaicas flutuante na albufeira. É um facto que a superfície de painéis fotovoltaicos a instalar é, no caso atual, cerca de dez vezes maior do que a ocupada pela central fotovoltaica já instalada, mas os fundamentos da contestação atual, apresentados pelos municípios, são, no fundo, os mesmos dos das críticas por mim formuladas há seis anos!

O recurso a centrais elétricas fotovoltaicas flutuantes, instaladas em barragens, é interessante, sob vários aspetos. Desde logo, por se tratar de mais uma forma de produção energia renovável, contribuindo para a descarbonização e para a transição energética, processos em que o País e a Europa estão empenhados.

Para os investidores, a instalação destes equipamentos, em barragens com centrais hidroelétricas, tem, entre outras, a vantagem de aí já disporem de possibilidade de ligação à rede elétrica, dispensando-os de investimentos significativos. Quando as centrais hidroelétricas das barragens são reversíveis, como é o caso de Alqueva, a viabilidade da produção de energia fotovoltaica flutuante é acrescida, pois elas constituem a melhor solução de armazenamento de energias aleatórias (solar ou eólica) – funcionam como “baterias gigantes”. No caso da nova central pretendida pela EDP, juntando-se ela às duas unidades que a empresa já detém na mesma zona, poderá, ainda, haver, para a empresa, economias resultantes da partilha de serviços entre as diferentes unidades.

Estes equipamentos criam muito poucos postos de trabalho e os que criam, quando em funcionamento, são, em geral, fora da região. Trata-se de sistemas altamente automatizados, podendo o seu funcionamento ser monitorizado à distância.

Os interesses das populações não são os mesmos dos investidores. Antes pelo contrário. Os Impactos negativos no ambiente e na vida das comunidades locais são grandes: São os que referi no meu artigo de 15 de agosto de 2019, potenciados pela dimensão do empreendimento que, a concretizar-se, irá ocupar uma área dez vezes maior do que a ocupada pelas plataformas da central flutuante já instalada.