Paulo Geraldo

O mapa do tesouro

Não gostamos de que nos digam o que devemos fazer. Preferimos que os outros se metam apenas nas suas vidas e não nos dêem conselhos ou avisos. Somos independentes, o que fazemos é connosco.


Quase todos vivem em cidades enormes, onde se tornou muito fácil proteger a nossa liberdade de olhares alheios. Ninguém nos conhece, ninguém tem tempo para se desviar por nossa causa.

Os amigos – porque agora não lhes admitimos conselhos sobre o sentido que damos aos nossos passos – passaram a ser apenas aqueles que circunstancialmente nos acompanham na paródia.

Não queremos que nos apontem caminhos. É-nos insuportável descobrir erros em nós e reconhecê-los. Que ninguém venha com lições de moral  dizemos depreciativamente

Ora, o que é próprio da moral é analisar quais os comportamentos que são bons e quais os que se devem evitar. E isso serve para uma coisa que nos interessa muito: serve para a felicidade.

A felicidade que é possível ter enquanto se anda por aqui tem uma relação íntima com aquilo que fazemos: procedimentos correctos – os que estão de acordo com a dignidade da nossa natureza humana – resultam em olhos limpos, em alegria na alma.

Sempre os homens tiveram necessidade de identificar as opções corretas entre uma imensidão de possibilidades, de apetites, de ideias, de sentimentos, de opiniões. A moral veio a ser, assim, uma arte de viver, um mapa do tesouro, um caminho seguro por entre obstáculos e armadilhas. Resulta de séculos e séculos de experiência.

A humanidade aprendeu que proceder de certas formas conduz a determinados resultados. Que atrás de algumas portas de bela aparência se escondem abismos tenebrosos de onde dificilmente se regressa. Há a experiência – embora surpreendente  de que os melhores caminhos são aqueles que quase sempre sobem, muitas vezes por entre espinhos.

É certo: não gostamos de que nos digam o que devemos fazer... a não ser que estejamos perdidos, ou desorientados, e queiramos muito chegar a um certo lugar. Agradecemos, então, que alguém tenha colocado na estrada uma placa que indique o caminho a seguir até onde queremos chegar. A moral serve para isso. «Que devo fazer nesta situação? Será bom fazer isto que agora me apetece?», perguntamos como quem pergunta o caminho para certo lugar. Queremos ser felizes.

A falta habitual de alegria pode ser um sinal evidente de se andar perdido. A desilusão crónica, o descontentamento permanente. Costumas ver – pela rua, em casa, no trabalho – muitas pessoas a transbordar felicidade?

Qualquer um se pode perder nos caminhos da vida. Faz um pouco parte de estarmos aqui. A vida tem sempre qualquer coisa de aventura. Mas se calhar é tolice perder-se por teimar em não olhar para as placas da estrada, ou em manter o gps desligado.