Jorge Valente

O português que ainda se fala em Goa


Dando sequência ao tema do meu anterior artigo nesta mesma coluna, volto ao escrito, em português, do padre Joaquim Loiola Pereira, intitulado “Korlai, onde o português é língua indiana”, publicado em O Heraldo, de 3/Maio/2021. Nesta mesma edição do jornal O Heraldo, está uma entrevista com o padre Sebastião Mascarenhas, na qual se complementa o exposto pelo padre J. L. Pereira, com situações concretas, ouvidas nas ruas e vielas de Korlai, ou seja, palavras e frases claramente com origem no português (como o caso, que vos relatei, do cão que “percebia a língua de Camões”).

   A grande aldeia Korlai, com fortificação própria portuguesa e vizinha da antiga e famosa fortaleza histórica de Chaúl, onde (sic, padre S. Mascarenhas) “toda a gente, velha e nova, ainda fala português, ou aquilo que dele resta”. Como Korlai se situa no coração de Maharastra, logo, cercada pelo marata, língua dominante, pelo que (sic, idem) “na escola, no mercado, no trabalho, falam todos o marata, mas, em casa, é sempre falado somente o crioulo português”. Isto acontece porque Portugal abandonou esta região no final do século XVIII, mas houve casais europeus que preferiram permanecer no local, assim como os descendentes das alianças matrimoniais realizadas entre europeus e mulheres locais, originando uma curiosa comunidade luso-indiana, ainda hoje muito presente e numerosa em Korlai.

   Daqui em diante, para não estar sempre a apontar-vos o devido “sic”, tudo o que estiver entre aspas é “sic, padre Sebastião Mascarenhas”, pároco em Goa, que visitou longamente Korlai, seguindo a recomendação do padre J. L. Pereira. Ao se apresentar como sacerdote, o padre S. Mascarenhas teve as portas abertas e sempre eram chamados os vizinhos, porque “este padre de Goa vei, quer ovir noss combarsa”. Nessas conversas (“combarsas”) foi-lhes pedido para contarem a numeração, ocasião em que se escutaram novos sons claramente lusos: “Um, doiz, trez, catr ... disnov, vint, vintaum, vintadoiz, vintatrez...”.

   Para o sacerdote goês, a musicalidade das sonoridades posteriores ganharam ainda maior relevo e uma doçura especial, por ter comprovado que uma das bandeiras da expansão portuguesa, a difusão da fé católica, também estava presente em Korlai, pois, em resposta a uma pergunta disseram: “Rezar, sim: em nome do Padr, do Filh, do Esprit Sant, Amén”. Perante este testemunho religioso, o padre disse, ao entrevistador, sentir um nó na garganta, pois acabara de presenciar que falavam, em português, também com Deus. Visitou a igreja católica, cuidada pelo maestro do canto coral litúrgico, o qual esclareceu que, para a realização das missas, o padre vinha de Bombaim (estavam sem padre em Korlai, devido à epidemia de covid), o qual só falava e pregava em marata, mas o canto litúrgico era em “nossling”. Observou que as páginas do manual do canto estavam escritas em caracteres indianos, ou seja, o português nossling encontrava-se na mente dos cantores.

   Continuando a visita a Korlai, populares levaram o padre ao campo da bola, onde miúdos estavam jogando futebol e foram ouvidos estes sons: “Pass, passaqui! Burr! Depress, merd!” O entrevistador escreveu que não resistia a transcrever a conversa havida depois, na íntegra: -“Que língua é esta que vocês estão falando?” Resposta, em coro: “Nossling”.

-“Nossling?” Resposta: “Sim, Nossling, Purtuguêz”.

-“Purtuguêz? Que é isso? Alguma língua estrangeira?” A resposta veio em bom inglês: “Purtuguêz is an Indian language”.

   O exemplo da nossling, como sendo o português ainda hoje falado e escrito em Goa, pode levar-nos a inferir que o estudo da lusofonia ainda deve ter um vastíssimo campo a desbravar pelo mundo a fora. A riqueza de Portugal não está apenas no presente, mas, sobretudo, está no nosso passado glorioso, que deveria encher de orgulho todos os portugueses. Volvidos tantos séculos, após a gesta dos descobrimentos, para se cumprir Portugal, falta ainda aos portugueses partirem à descoberta das suas marcas identitárias espalhadas pelo mundo.