Lurdes Fachadas
O varal lá estava
O varal lá estava, estendendo os braços para o ar, como que numa dança tribal a chamar o bom tempo. A cana descia, as peças alvas da água de sabão no tanque penduradas uma a uma na corda gasta, com a preguiça do Tempo, e subia de novo, para só ser aliviada depois da missão cumprida. Este ritual, há uns anos tão comum por todo o lado, como no testemunho das fotos amareladas do pátio dos Rolins, prende-me, enfeitiçada , como uma criança a quem mostram um truque de magia que ela não pode entender. Porque já não é comum. Porque achei que tinha ficado perdido para sempre, como o instante que ficou eternizado algures no tempo, no tal pátio. Num tempo em que lá morava gente. Em que se ferravam as bestas. Em que vagabundeavam canitos sem trela nem coleira, atrás de quem lhes desse alguma coisa para matar a fome, e com sorte, se deixasse cativar e os levasse para casa. No meio destes pensamentos, em que perpassa na minha memória o pátio dos Rolins com a icónica janela manuelina, agora de cara lavada por conta da instalação do posto de turismo, um pisco ferreiro, qual mini peluche, atrai a minha atenção. Saltita, demasiado perto de mim, olhando -me nos olhos, sem revelar qualquer receio. Espantada com a sua audácia, mais característica de um pardal ou um pombo pedichão, olho-o fascinada. Parece querer dizer-me algo...Passados dois ou três minutos voa para cima do muro caiado, de onde ainda olha para mim, antes de sair do meu campo de visão.
Redireciono a minha atenção para o banco de tábua tosca pintada e pés de ferro negro, de onde observo, a acenar-me, a saia colorida, as camisas brancas e os alegres panos de cozinha dançando ao vento. Mas a fugaz visita do pequeno pisco, com o seu comportamento tão pouco característico, não me sai da cabeça. Em várias culturas, um pássaro é considerado um mensageiro. Um símbolo de conexão entre o céu e a terra.
A invocação desse legado ancestral, de povos ligados à essência da mãe Gaia, faz-me sentir um repentino aconchego, como se um invisível curativo mitigasse a solidão da perda irreversível dos que amamos, bem como a angústia da incerteza. A incerteza de os rever, a incerteza de ser um dos que amámos quem soprou o pisco na direção do meu microcosmos, ou se foi o meu microcosmos pessoal que retirou ilações que facilitem o lidar com a saudade. Porque esta não é uma saudade adocicada pelo planeamento do próximo encontro, do próximo abraço ou sorriso cúmplice, mas sim uma saudade desprovida de esperança, como o caminhar sedento na direção de uma fonte que sabemos já ter secado. Por isso é tão importante rirmos juntos, sermos ora o que cai , ora o que levanta, e abraçarmo-nos muito. Antes de partirmos.