Mário Cavaco

“RASI: O Teatro Oficial da (In)Segurança com Números em Máscara”

Há datas que dizem muito sobre quem governa, porque escolher o último dia de Março para apresentar o relatório anual de segurança interna, evitando por um suspiro o simbólico 1 de Abril, não é apenas prudência de calendário, é, talvez, um exercício de contenção de danos, porque quando a realidade ameaça parecer caricatura, convém não lhe dar o palco da ironia oficial.


O Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) de 2025 foi apresentado com a solenidade habitual, essa liturgia burocrática onde os números são tratados como dogmas, ainda que, por vezes, mais próximos da fé do que da verdade e, no entanto, basta olhar com atenção para perceber que os números contam uma história menos tranquilizadora do que a narrativa política pretende sugerir

Diz-se que a criminalidade violenta e grave diminuiu 1,6%, mas esquece-se, ou omite-se com elegância administrativa, que no ano anterior havia aumentado 2,6%, mas, no balanço final, o que temos não é uma descida robusta, mas um tímido recuo que mal disfarça a tendência de subida, tal como diria Winston Churchill, “há três tipos de mentiras: mentiras, mentiras descaradas e estatísticas” e aqui, a estatística parece vestir fato de gala para ocultar uma verdade menos apresentável.

Mais curioso ainda é o aparente malabarismo aritmético, fala-se em descida, mas os números absolutos parecem contar outra história, porque se em 2024 rondávamos os 14.000 crimes violentos e em 2025 surgem 14.149, então estamos perante uma nova matemática, talvez uma inovação lusitana onde subir é descer e descer é apenas uma questão de perspetiva.

No meio desta névoa numérica, há ainda uma ausência gritante, a omissão da nacionalidade dos autores de crimes, uma regra que, sob o pretexto de neutralidade, acaba por toldar o debate público, pois como lembrava Margaret Thatcher, “os factos são teimosos” e quando os escondemos, não desaparecem, apenas regressam mais tarde, amplificados pela desconfiança.

Entretanto, certos crimes, violações, extorsão sexual, homicídios, apresentam sinais de agravamento e aqui o silêncio institucional torna-se ainda mais ensurdecedor, porque governar não é apenas anunciar descidas percentuais, é enfrentar tendências incómodas com clareza e coragem, porque a verdade não muda consoante a nossa capacidade de a suportar e, talvez, seja esse o ponto, a verdade exige mais do que conferências de imprensa bem ensaiadas.

O debate sobre imigração, por seu lado, surge inevitavelmente associado à questão da segurança, ainda que muitas vezes tratado com o simplismo de um panfleto ou o medo de um tabu, porque entre o alarmismo e a negação, falta frequentemente o essencial, dados claros, políticas firmes e uma capacidade real de distinguir entre integração e descontrolo, porque um Estado que não controla fronteiras dificilmente controla consequências.

Portugal, esse país que durante décadas se orgulhou de ser um porto seguro, começa a confrontar-se com sinais de desgaste nesse estatuto e não é com relatórios adornados que se resolve o problema, mas com decisões políticas que enfrentem a realidade sem filtros ideológicos.

No fim, o RASI de 2025 deixa-nos não com um retrato fiel da segurança interna, mas com uma espécie de espelho deformado, onde tudo parece ligeiramente melhor do que é, e perigosamente mais confuso do que deveria e, assim, seguimos, entre números que tranquilizam discursos e factos que inquietam cidadãos.

Porque, no fundo, a questão é simples, quando a segurança se torna estatística, quem protege a realidade?